“Cultivo de mexilhão do mangue: pioneirismo na Ilha Comprida”

por Sara Nanni 

Uma pesquisa pioneira sobre cultivo de mexilhão do mangue Mytella sp está sendo desenvolvida na Ilha Comprida, na faixa de manguezal entre o bairro Pedrinhas e o Rio Boguaçu, incluindo o bairro Juruvaúva. A intenção é levantar dados sobre as espécies sururu (Mytella falcata) e bico-de-ouro (Mytella guyanensis) no ambiente, ordenar a extração desse molusco e estudar a viabilidade do cultivo na região. O projeto “Mitilicultura de Mytella sp no Complexo Estuarino de Ilha Comprida e Cananéia” foi implantado há dois anos e conta com a parceria da prefeitura de Ilha Comprida, do Instituto de Pesca, da CATI (Coordenadoria de Assistência Técnica), da APA CIP do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) e das comunidades de Pedrinhas e Juruvaúva. O financiamento é do Fehidro (Fundo Estadual dos Recursos Hídricos).

A idéia é que, no futuro, as comunidades envolvidas possam tirar benefícios do projeto, cultivando o mexilhão para depois comercializá-los. Para tanto, estão sendo testados as estruturas de captação e engorda (confeccionadas com material de baixo custo) e os lugares ideais para distribuí-las no estuário. Hoje, são usadas estruturas de captação denominadas “balsinhas”, ou balsas, feitas com bambus, que ficam na superfície da água e são fixadas próximas dos manguezais. Entre os bambus são amarradas cordas, sacos de ráfia, pedaços de rede, garrafas de plástico e tiras de câmara de ar. Os mexilhões que se movimentam na água, ainda em fase larval e medindo poucos milímetros, fixam-se nesses substratos, quando passam a ser denominados sementes. Os pesquisadores esperam essas sementes atingirem o tamanho de 1 a 2 centímetros para então colocá-las em estruturas de engorda do tipo gaiola.

Uma vez por semana as balsas são verificadas, e coletam-se amostras de mexilhão das gaiolas. Essas amostras são congeladas e levadas ao Instituto de Pesca de Santos, onde é feita a medição de tamanho dos moluscos.

 

Expectativa – Embora a pesquisa já apresente alguns resultados que provam a viabilidade da mitilicultura na região, como algumas estruturas de engorda com mexilhões aproximando-se do tamanho ideal para a venda, os técnicos do projeto preferem não criar expectativas nas comunidades. “Como é um trabalho pioneiro ainda faremos muitos experimentos para chegar num formato ideal”, justifica a zootecnista Roseli Hoppen, técnica da CATI. “A tecnologia não está pronta”.

            A zootecnista Paula Castanho Ansarah, do Ibama, responsável pela proposta do projeto, explica que ainda serão testados novas áreas de cultivo e outros tipos de estruturas de engorda, como tabuleiros e camas, também utilizadas no cultivo da ostra do mangue Crassostrea brasiliana. Ela também ressalva que há poucas pesquisas no Brasil desenvolvidas com o mexilhão do mangue, e muito menos a respeito do seu cultivo.

            Ainda não se sabe o tamanho certo que as sementes devem atingir para serem colocadas nas gaiolas. Por isso, elas são retiradas das “balsinhas” com diversos tamanhos. Outra situação, para a qual não se sabe o motivo, é o fato do mexilhão bico-de-ouro não se fixar nas balsas. Mesmo assim, eles são retirados do mangue e levados às estruturas de engorda, já que é a espécie, segundo Ansarah, que atinge os maiores tamanhos para a comercialização, chegando a 8 centímetros, enquanto o sururu atinge 5 centímetros.

            No entanto, já se sabe que a corda e o saco usado para colocar cebola funcionam muito bem como estruturas de captação. Esses materiais foram colocados nas balsas depois que se notou a ineficiência dos bambus, que agora tem a principal função de manter as estruturas boiando. Também já é possível observar as melhores épocas para a captação da semente. Segundo Roseli Hoppen, isso acontece aparentemente nas épocas mais quentes do ano, entre os meses de outubro e março. Porém, a zootecnista faz ressalvas: “o lagamar tem muitas particularidades”. “É um lugar no qual nem tudo se adapta em razão das grandes oscilações de salinidade. Para tudo é preciso fazer experiências. Não dá para aplicar aqui um modelo já pronto que venha de outro lugar”.

 

Tradição - A região do lagamar, no litoral sul de São Paulo, é bastante conhecida por ser um grande abrigo de comunidades de pescadores artesanais. No entanto, poucos ainda vivem exclusivamente da pesca, incrementando a renda da família com atividades relacionadas ao turismo. Alguns trabalham como caseiros para veranistas, enquanto outros vendem isca viva, como o camarão-branco, para turistas que praticam a pesca amadora. O que pode colaborar para diminuir ainda mais a prática da pesca artesanal, é o fato dos mais jovens não quererem seguir o mesmo caminho dos pais. As dificuldades da profissão, como o baixo rendimento da atividade, as restrições ambientais e a diminuição dos estoques pesqueiros não atraem aqueles que poderiam adotar as tradições da pesca. Porém, na maioria das vezes, os jovens não conseguem terminar o segundo grau e poucos têm a sorte de ingressar em alguma outra atividade. “Eles acabam se tornando mão-de-obra desqualificada”, opina a zootenista Roseli Hoppen. O cultivo de mexilhão pode significar mais uma alternativa de renda, além de atrair os filhos dos pescadores. “A mitilicultura é uma atividade técnica que pode afastar a visão marginalizada que eles têm da pesca”, explica Hoppen.

            Hoje, a comunidade do Juruvaúva participa coletando amostras diárias de água para verificar a salinidade e ajudando na confecção de algumas estruturas de captação. “O que tentamos fazer é uma pesquisa com a participação da comunidade”, afirma a técnica da CATI.

 

 

Sugestões de comentários e análises:

 

O que essa reportagem tem a ver com o turismo no Vale do Ribeira? É muito importante o incentivo de pesquisas relacionadas à conservação dos recursos naturais do Vale do Ribeira. O cultivo do mexilhão do mangue na Ilha Comprida é uma proposta de manejo e ordenamento da atividade de coleta de duas espécies de mexilhão que vivem no mangue do lagamar. Isso significa preservar um recurso natural e melhorar a renda da população local que dele usufrui. Antigamente, muitas pessoas extraíam esses recursos da natureza somente para o próprio sustento. Dessa forma, não se comprometia o estoque dos recursos naturais do Vale do Ribeira, como peixes, ostras, mexilhões e camarões. No entanto, como o avanço da atividade turística na região, esses recursos passaram a ter seus estoques comprometidos devido à sobrepesca (esforço excessivo de captura sobre um determinado recurso). Com o incremento do turismo, a demanda desses recursos aumenta, então eles são capturados em maior quantidade. Dessa forma, a pesquisa tem um papel fundamental a medida que pode analisar a viabilidade de programas de manejo sustentado de recursos naturais, repassando esse conhecimento para as comunidades de extratores e pescadores da região. Assim, pode-se suprir o mercado consumidor com produtos de qualidade sem esgotar o recurso na natureza. O que se deseja é apresentar ao turistas paisagens conservadas e não degradadas. Existem no Vale outros exemplos que também podem ser citados com relação à pesquisa científica e ao manejo de recursos naturais, como o cultivo e engorda de ostras em Cananéia, o cultivo de Robalo na Ilha Comprida e Cananéia, o cultivo do mexilhão da pedra também em Cananéia. Todas essas iniciativas são vitais para a população local que precisa vender esses produtos ao turista para sobreviver sem, no entanto, extingui-los da natureza. É preciso pensar no futuro. Conservando um recurso, através de pesquisa, manejo e ordenamento de captura, ele sempre irá existir e a fonte de renda nunca irá acabar. Cabe ao poder público local fomentar essas iniciativas e auxiliar os institutos de pesquisa que trabalham com esses projetos. Nem sempre o governo do Estado fornece toda a infra-estrutura necessária para viabilizar esses projetos de pesquisa de forma adequada. Eles têm tudo a ver com a qualidade de vida dos habitantes do Vale e com o desenvolvimento ordenado da atividade turística e devem ser apoiados sempre. A participação da população local (a principal beneficiada) também é muito importante. É ela quem pode levar adiante esses projetos depois que eles são implementados nas comunidades. Essa é também uma forma de aliar turismo e conservação ambiental.